terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

O QUE PARA ALGUNS É PREFERÊNCIA, PARA OUTROS É NECESSIDADE


O mercado informal não pára de crescer no Centro do Recife. E por ano, o Governo deixa de arrecadar cerca de 200 bilhões de reais.

Por Priscila Soares e Wagner Santos

As ruas estreitas do Centro do Recife abrigam muito mais do que pontes e igrejas seculares, elas estão cada vez mais sendo disputadas por um comércio que não pára de crescer: o mercado informal. Entre gritos e ofertas para atrair o consumidor, comerciantes, clientes e pedestres disputam espaço nas calçadas. De acordo com o Diretor da Companhia de Serviços Urbanos do Recife (CSURB) muitos ambulantes aproveitam o momento de transição política para se instalarem em locais proibidos.

Segundo a Fundação Getúlio Vargas (FGV) e o Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (ETCO) a economia informal movimentou R$ 578 bilhões no Brasil em 2009, valor que representa 18,4% do PIB do país. O vendedor de salgados Sérgio Alexandre, que já trabalhou em várias lojas do comércio, não se preocupa com a fiscalização da prefeitura. Ele vende coxinhas e empadas, feitas por ele mesmo há quatro anos, e diz que não voltaria a trabalhar de carteira assinada. “Apesar de ser mais seguro, eu não ganharia o que ganho hoje. Uns R$ 2.600,00 por mês” afirma o vendedor.

O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Fundação Seade) informou que a taxa de desemprego no Recife caiu 3,8% em julho, porém isso não foi suficiente para reduzir o número de comerciantes que chegam das diversas cidades para o Centro do Recife. Como é o caso da comerciante Cosma Severina, de 41 anos, que reside em Itamaracá, porém a mais de 20 anos vende frutas num tabuleiro na Rua do Porão no bairro de São José. “Eu preferia trabalhar de carteira assinada, mas quem tem estudo já está desempregado, imagine a gente que não tem leitura”, disse Cosma.

O Vendedor Espedito Freitas, 63 anos, já foi estivador, chegou á vender vale-transporte, alimentos e agora tem um tabuleiro de brinquedos e objetos pessoais. Ele não pensa em parar de trabalhar, pois sustenta a família com a renda que consegue nas vendas. “Eu sou cadastrado, e a licença é atualizada a cada seis meses. A gente tem direito de colocar tabuleiros de até 80 centímetros na área pública, mas tem loja que não gosta quando a gente fica na frente. Aquela ali, por exemplo, é a minha principal concorrente”, disse ele se referindo à loja que vende objetos a partir de R$ 0,50 na Rua da Praia. Já o Gerente da Loja, Eraldo Barbosa, 35 anos, disse não se incomodar com os camelôs que ficam na frente da loja. “Pra gente não atrapalha, até porque o cliente prefere comprar aqui na loja, já que ele sabe que vai ter a quem recorrer caso haja algum defeito na mercadoria. Inclusive os brinquedos que vêm com defeitos ou sem o selo do INMETRO são repassados para os ambulantes por um preço menor”, disse ele.

A Diretoria de Controle Urbano e Ambiental do Recife (Dircon) esclarece que vem realizando ações regulares de fiscalização nas vias do Centro da cidade, para coibir o aumento do número de ambulantes. A prefeitura garante que os técnicos do setor analisam propostas para tentar ordenar os camelôs. Uma delas seria a criação de locais específicos para agrupar os vendedores, no estilo shopping popular, que poderiam funcionar em áreas como as Avenidas Dantas Barreto e Guararapes, no bairro de Santo Antônio, Centro da cidade. Mas nada foi definido ainda.

Consumidor - A auxiliar administrativa, Marta Regina, de 33 anos, diz não se incomodar em comprar os produtos vendidos na rua, ela procura equilibrar qualidade e preço. “Na hora de comprar o produto se eu já tenho um de qualidade, eu procuro estética, e sei que aqui na rua eles vendem um produto talvez de qualidade igual ao da loja, mas com um preço menor”, disse Marta.